China de volta ao mercado de sêmen bovino, mas apenas o que há de melhor é aceito

  • Genética
  • 02/11/2026
02 Reuters - 1.png
02 Reuters - 2.png
02 Reuters - 4.png
02 Reuters - 5.png

PEQUIM, 27 de outubro (Reuters) — Utopia é um dos melhores touros da raça Angus da Austrália: totalmente preto e musculoso, ele gera gado de grande porte, com rápido crescimento e carne de excelente qualidade.

 

Em uma manhã recente, nas instalações da Total Livestock Genetics em Camperdown, a duas horas a oeste de Melbourne, Utopia monta uma vaca e seu pênis é desviado por um tratador até uma vagina artificial. O sêmen, de alto valor, é dividido em centenas de palhetas plásticas; cada uma contém milhões de espermatozoides, quantidade suficiente para uma inseminação.

Congeladas em nitrogênio líquido, as palhetas serão enviadas para a China, país que retornou ao mercado de sêmen bovino após uma quase paralisação no comércio de genética bovina — situação que bloqueou importações de grandes fornecedores, como Estados Unidos, Europa, Canadá e Austrália, e deixou os fornecedores locais tão abalados que surgiu um mercado de sêmen e gado contrabandeados.

Agora, fornecedores australianos e canadenses estão ampliando os envios; Estados Unidos e Reino Unido também poderão ser aprovados em breve, segundo fontes do setor. A China busca, com isso, melhorar seus rebanhos — atualmente pouco produtivos —, aumentar a produção de carne bovina e a lucratividade da pecuária leiteira, além de reduzir a crescente conta com importações.

No entanto, a retomada este ano veio acompanhada de um rigoroso padrão de qualidade, limitando as importações a sêmen proveniente dos 10% melhores touros do país de origem, segundo autoridades governamentais, diplomatas e empresas do setor de genética.

As importações — o primeiro lote, vindo da Austrália, chegou em abril — e o processo intensivo de triagem (um detalhe até então não divulgado) refletem o reconhecimento, por parte da China, de que seu próprio rebanho não alcança a qualidade genética encontrada em países como os Estados Unidos e a Austrália, onde animais de maior porte tornam-se cada vez mais produtivos. A informação foi confirmada por mais de 20 representantes do setor.

"Historicamente, o gado chinês foi selecionado para o trabalho no campo, enquanto as raças ocidentais foram desenvolvidas para a produção de carne e leite", explicou Hao Hongman, gerente da Beijing World Wide Sires, empresa especializada em genética bovina.

"Atualmente, os produtores chineses buscam o melhor sêmen importado para que seu gado cresça mais rapidamente, consuma menos alimento e produza mais carne e laticínios."

MELHORAMENTO DO REBANHO

O sêmen importado pode ser utilizado para a reprodução de animais de alto padrão genético ou aplicado em rebanhos locais, gerando descendentes que, embora não alcancem o nível de excelência dos exemplares de elite, apresentam uma produtividade superior à de seus ancestrais.

Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), as carcaças de gado de corte na China pesam cerca de 150 kg, em comparação com quase 400 kg nos Estados Unidos; da mesma forma, as vacas leiteiras chinesas produzem menos leite do que o rebanho norte-americano. Uma genética aprimorada também resulta em uma carne mais saborosa e com melhor marmoreio, leite de maior qualidade, crescimento mais rápido dos animais e menor necessidade de ração.

Essas características tornam-se cada vez mais valiosas à medida que uma classe média mais abastada passa a preferir cortes nobres — como os das raças Angus e Wagyu — em detrimento de cortes mais firmes, tradicionalmente utilizados em ensopados e cozidos. Dados oficiais chineses indicam que, em 2024, o consumo de carne bovina pelos chineses era quase o dobro do registrado uma década antes, enquanto o consumo de laticínios cresceu 30% no mesmo período. As importações de carne bovina e de produtos como creme de leite, queijo e manteiga dispararam, atingindo um montante entre 25 e 30 bilhões de dólares por ano.

O objetivo final da China é desenvolver uma genética de ponta, em nível mundial, e passar de importadora a exportadora — um caminho que o país já trilhou em diversos setores, de automóveis à produção de carne de frango, segundo fontes do setor.

Isso será um desafio, afirma Marcus Rees, gerente-geral da filial australiana da ABS Global, empresa proprietária do touro reprodutor Utopia.

Mesmo fornecendo à China uma genética de alta qualidade, empresas como a ABS garantem que possuem um fluxo contínuo de animais geneticamente superiores em desenvolvimento, explica ele.

Os ministérios da Agricultura e do Comércio de Pequim não responderam aos pedidos de comentários.

"NÃO É UM VINHO FINO"

Em 2021, a China declarou a autossuficiência em genética animal como uma prioridade de segurança nacional, identificando a criação de gado como um ponto fraco crítico. Até 2026, o governo investiu milhões de dólares em centros de reprodução locais; contudo, a genética desenvolvida no país ainda está atrás da de nações ocidentais.

"Os centros de reprodução locais possuem uma boa genética, mas não a mais avançada. As grandes fazendas chinesas, de alto padrão, exigem uma genética superior", diz Rone Lane, CEO canadense da Beijing World Wide Sires, que fornece material genético para gigantes chinesas do setor de laticínios, como Yili, Mengniu, Feihe e New Hope.

Essa defasagem aumentou à medida que a China, entre 2019 e 2025, suspendeu sucessivamente as importações de animais vivos e sêmen de diversos países, além de restringir a entrada de embriões bovinos e animais vivos, segundo dados comerciais e especialistas do setor.

Muitas dessas interrupções coincidiram com confrontos políticos — como a intensificação da guerra comercial promovida pelo então presidente dos EUA, Donald Trump, e o período de relações tensas entre Pequim, Canberra e Ottawa.

"A genética torna-se obsoleta muito rapidamente", observa Ian Lahiffe, consultor agrícola baseado em Pequim.

 

"Sêmen não é como um vinho fino; ele não envelhece bem. Em um ano, já se torna algo ultrapassado."

 

Segundo uma dúzia de fontes do setor, alguns produtores chineses ficaram tão desesperados durante essas restrições comerciais que recorreram ao contrabando de sêmen ou gado vivo, utilizando países vizinhos — como Mongólia, Cazaquistão e Vietnã — como rota.

 

"Todos os dias, nossos clientes perguntam quando poderão voltar a adquirir sêmen dos EUA e quando o mercado americano será reaberto", relata Lane.

 

TOURO PRODUTIVO

O fluxo de sêmen para a China ainda é lento, uma vez que um painel de especialistas submete cada remessa a um processo de análise que dura mais de quatro meses, a fim de verificar se ela atende à regra de estar entre os 10% melhores (critério de elite), segundo informaram empresas de genética e diplomatas.

Algumas remessas foram aprovadas apenas parcialmente por não cumprirem o padrão exigido, relataram fontes do setor.

Na Austrália, uma equipe de auditoria chinesa esteve presente no ano passado para inspecionar as instalações que abrigam o touro Utopia — um nível de rigor raramente visto por parte de outros importadores, afirmou Rees, da ABS.

Dados da alfândega chinesa mostram que, até o final de agosto, a China havia recebido 92.573 doses de sêmen, provenientes da Austrália e do Canadá, totalizando um valor de cerca de 700 mil dólares. Embora esse volume seja muito inferior aos aproximadamente 10 milhões de doses anuais importados antes das restrições, o comércio está em expansão.

A ABS Austrália prevê exportar, no próximo ano, cerca de 200 mil doses de sêmen de touros das raças Wagyu, Angus, Holandesa e Jersey — um volume superior ao total enviado para todos os outros países somados. A empresa também planeja incluir mais dois ou três touros da raça Angus para atender ao mercado chinês, disse Rees.

Representantes do setor afirmam que os Estados Unidos — responsáveis por cerca de 55% do mercado global de sêmen bovino, que movimenta meio bilhão de dólares por ano — voltarão a ser o principal fornecedor da China, assim como eram antes da interrupção das trocas comerciais.

Enquanto isso, o touro Utopia segue bastante ativo, com coletas realizadas duas vezes por semana. Segundo Rees, a maior parte de seu sêmen será utilizada em vacas leiteiras na China, visando garantir que a descendência apresente maior produtividade e melhor qualidade de carne.

"A China absorverá tudo o que ele for capaz de produzir", disse Rees. "Felizmente, ele possui uma libido muito elevada."

 

Fonte: Reuters (26/10/2026). Reportagem de Daphne Zhang e Lewis Jackson, em Pequim. Edição de Tony Munroe e Saad Sayeed.

Fonte: Reuters China, Reuters, Mercado, Genética